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Gelcoat
Poucas pessoas podem imaginar que por trás do brilho do acabamento
no gelcoat dos
barcos, uma infinidade de variáveis esconde um processo cheio
de truques e armadilhas que só alguns construtores conhecem.
O gelcoat é a camada mais externa do casco de um barco, geralmente
branca, mas esta pode ser de qualquer cor. Aplicada em primeiro
lugar dentro do molde, antes das laminações das camadas
de fibra, a espessura média dessa camada é de, aproximadamente,
0,6 milímetros. Sendo tão fina, não dá
margem para erros na sua formulação ou aplicação.
Construtores experientes, que geralmente produzem laminados de
fibra de vidro de boa qualidade, podem listar uma série de
problemas com gelcoat e com boas razões. Na maioria das vezes,
laminados de fibra de vidro e resinas poliéster podem curar
com catalisador MEKP nas mais diversas proporções
e em quase todas as condições de temperatura e umidade,
embora produzam laminados de qualidade suspeita. Gelcoats são,
na verdade, uma mistura de resina poliéster e uma série
de cargas minerais. Em sua utilização, são
muito sensíveis a qualquer tipo de variação,
podendo produzir incríveis surpresas após a desmoldagem
das peças.
Além da proporção de catalisador, outra variável
também difícil de se controlar é a espessura
do filme de gelcoat. Se aplicado muito grosso, várias rachaduras
poderão aparecer em muito pouco tempo. Se aplicado muito
fino, provavelmente haverá uma série de defeitos de
enrugamento a serem corrigidos após a desmoldagem do casco
e o construtor irá gastar horas e mais horas reparando, repintando
e polindo a peça.
Essa variação crítica de espessura é
algo em torno de mais ou menos dois décimos de milímetro.
Geralmente, os construtores consideram a aplicação
de gelcoat muito mais delicada que a laminação, porque
a maior parte dos fabricantes desse tipo de material não
sabe exatamente o que mistura, a maior parte dos vendedores não
sabe o que diz e a maior parte dos gelcoteadores não sabe
o que faz. Pode parecer engraçado, mas experimente passar
duas horas ao lado do gelcoteador de uma fábrica que produza
barcos, ou mesmo qualquer outra peça de fibra de vidro. Você
ficará apavorado com o número de problemas que ocorrem
nesse pequeno espaço de tempo. Problemas na instalação,
na rede de ar comprimido, na pistola, nos filtros, no molde, na
cera, no solvente, no catalisador e mesmo na qualidade do gelcoat
a ser pistolado
Por outro lado, se um estaleiro consegue fabricar peças
acabadas em gelcoat de uma forma eficiente, é muito provável
que toda sua linha de produção esteja sob controle.
Antes de mais nada, é bom informar que não existe
uma única formulação para fabricação
de gelcoat. Se o construtor iniciante fizer uma enquete com vários
fabricantes desse material encontrará variações
expressivas na proporção de quase todos os componentes.
Entretanto, uma coisa há em comum: todos são feitos
com base em resina poliéster, embora nem todas estas resinas
sejam recomendadas para esse trabalho. Algumas delas possuem baixa
resistência à absorção de água,
o que deve ser evitado no gelcoat. Outras são muito rígidas
ou apresentam problemas no ajuste de pigmentação.
Mesmo utilizando resinas isoftálicas, ao invés das
ortoftálicas de uso geral, o alongamento dessas resinas não
consegue ultrapassar a 2%. Então, em alguns casos, é
necessário preparar uma mistura (blend) com resinas flexíveis,
que têm o inconveniente de aumentar a absorção
de água, podendo iniciar um processo de formação
de bolhas. A melhor composição fica mesmo com uma
mistura de resina isoftálica+NPG (neo-pentil-glicol).
Outro ponto importante na formulação do gelcoat é
a quantidade de cargas que cada um dos fabricantes coloca. É
bom esclarecer que não há nada errado em se colocar
cargas no gelcoat, embora seja este o fator primordial para redução
de custos por parte do fabricante do material. Normalmente, 1 kg
de talco industrial custa 20 vezes menos que 1 kg de resina.
Se algum dia, alguém, tentando vender gelcoat, disser que
sua formulação não tem cargas, eu sugiro fazer
duas coisas. Primeiro, não acredite; depois, não compre.
Um balanço correto dessas cargas é fundamental para
diminuir a taxa de contração da resina poliéster,
que é de quase 8%. Sem essas cargas, a chance de ter problemas
de impressão da fibra na parte externa do laminado (print
thru) e desmoldagens precoces é grande. As cargas mais utilizadas
nas formulações são talco industrial, carbonato
de cálcio e dióxido de titânio. Como regra geral,
todas as formulações levam ainda, em média,
de 2% a 3 % de agente tixotrópico (Aerosil® ou Cab-O-Sil®),
que é importante para evitar o escorrimento do gelcoat quando
aplicado em superfícies verticais.
Outro ingrediente importante é o filtro contra raios ultravioleta.
Geralmente, eles são incorporados logo no processo de mistura
do pigmento em uma matriz de resina não reativa. Esses produtos
são indispensáveis para evitar que os raios UV ataquem
a camada de gelcoat e a superfície do barco comece a descolorir
ou amarelar. É também importante ressaltar que para
cada tipo de resina existe um filtro específico. Outro detalhe
é que estes filtros reagem com o tempo com os raios UV, transformando-se
em outros subprodutos e perdem seu potencial de filtragem em 1 ou
2 anos. Esta degradação da superfície do gelcoat
que reage com os raios UV pode ser notada quando passamos a mão
sobre a superfície do costado e sentimos uma espécie
de "empoeiramento" de cal.
No que se refere a custo/qualidade, existe uma infinidade de formulações
que podem ser desenvolvidas para cada tipo de aplicação
de gelcoat. Assim, se o construtor pretende conseguir um acabamento
"top quality" em suas peças, deve instruir corretamente
o fabricante do gelcoat sobre seu processo de aplicação,
qualidade do molde e tipo de desmoldante ou cera. Fabricantes de
gelcoat não fazem mágica. Se você não
está disposto a pagar o preço de matérias-primas
de primeira qualidade, obviamente estará comprando algo de
segunda categoria.
Uma aplicação correta de gelcoat requer uma técnica
que, infelizmente, não pode ser ensinada através de
simples instruções teóricas do fabricante desse
material. Ela deve ser desenvolvida com a prática. Um operador
de gelcoat deve ser treinado para reconhecer visualmente a espessura
e viscosidade do material, independente do tipo de sistema de aplicação
que o estaleiro possua.
Para grandes volumes de produção, é utilizado
um sistema de spray, onde o gelcoat fica armazenado junto com o
acelerador em um recipiente (geralmente 20 litros) e o catalisador
em outro. O gelcoat é pistolado e através de seu fluxo
o catalisador é misturado na cabeça da pistola. As
duas precauções que devem ser tomadas com este sistema
é que todo o equipamento deve ser mantido completamente limpo,
e a proporção de catalisação deve ser
permanentemente ajustada dentro dos limites recomendados pelos fabricantes
(1% a 2%).
Atualmente, esses equipamentos têm o catalisador ajustado
por meio de um braço mecânico nos sisemas air less,
que utiliza a pressão hidrostática para bombeamento
e atomização da mistura, sem o inconveniente de poluir
toda a oficina de laminação com partículas
tóxicas, como no sistema de spray, e podem projetar um grande
volume de material com baixa pressão de ar (HVLP - High Volume
Low Pressure) .
Para quantidades de produção modestas, existem pistolas
de caneco invertido com 1 litro para colocação de
gelcoat já catalisado, e se adaptam bem na fabricação
de pequenas peças. A utilização de rolos ou
trinchas para aplicação de gelcoat pode ser feita,
mas necessita de grande prática para ajustar gel time e espessuras.
A maior desvantagem desse sistema é a falta de uniformidade,
e você só vai descobrir o resultado após desmoldar
a peça.
Todo detalhe é importante quando se pretende fazer uma aplicação
eficiente de gelcoat, pois muitos problemas associados com este
tipo de material são também provenientes de falhas
de aplicação. Dessa forma, a proporção
de catalisador MEKP, temperatura e espessura de aplicação
(16 a 20 mils) devem ser sempre monitorados. Recomenda-se que logo
que o construtor receba o gelcoat, teste-o para medição
do tempo de gelificação (gel time) e dureza, simulando
as mesmas condições de aplicação.
Mesmo utilizando um gelcoat de comprovada qualidade e todos os
cuidados na aplicação, fatores externos como a qualidade
e a preparação do molde podem interferir no produto
final. Não há nada pior que um molde com baixa qualidade
de acabamento superficial, pois todos os defeitos serão reproduzidos
e a partir deste ponto não há o que fazer. Para quem
não se preocupa com a desmoldagem, manutenção
e cuidado com os moldes, usar guinchos, talhas, cunhas de madeira
e martelos de borracha, assim como derramar água por uma
fresta entre a peça e o molde podem até ser, em última
hipótese, bons agentes desmoldantes. Por outro lado, um pouco
de planejamento e a simples leitura das instruções
de aplicação de modernos agentes desmoldantes pode
evitar essas medidas extremas. Atualmente, alguns sistemas de preparação
de moldes a base de ceras e polidores podem proporcionar excelente
acabamento superficial nas peças em gelcoat, sendo possível
desmoldar até 50 peças sem tocar no molde. Ao contrário
do que possa parecer, cera em excesso pode atacar o molde criando
um filme de poliestireno visível através do embaçamento
da superfície do molde que, além de dificultar a desmoldagem,
praticamente elimina o brilho da peça.
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